A humanidade faz cerveja há pelo menos 8.000 anos. O lúpulo, porém, é novidade, ao menos na escala histórica que isso representa. Durante a maior parte desse tempo, a cerveja não levava nada que hoje chamaríamos de lúpulo. Levava ervas, especiarias, raízes, o que estivesse à mão pra equilibrar a doçura do malte e ajudar a conservar a bebida. O Humulus lupulus ou a "planta do lobo", como o nome em latim sugere, pela forma agressiva com que ela trepa e domina o que estiver em volta só começou a aparecer nos registros cervejeiros no início da Idade Média.O primeiro registro escrito que temos de cultivo de lúpulo com intenção cervejeira vem dos monges beneditinos de Weihenstephan, perto de Munique, na Baviera. Em 736, pouco mais de uma década depois de fundado o mosteiro pelo missionário Corbiniano, já havia menção explícita aos jardins de lúpulo da abadia. Em 1040, o bispo Engilbert de Freising concedeu ao mosteiro o privilégio oficial de produzir e vender cerveja. Aquele mosteiro existe até hoje  desde 1803 pertence ao Estado da Baviera (quando Napoleão secularizou as propriedades da Igreja) e hoje é sede de uma das melhores universidades de tecnologia cervejeira do mundo, a Universidade Técnica de Munique, que também mantém uma cervejaria comercial ativa. Isso faz de Weihenstephan a cervejaria mais antiga em operação contínua no mundo mais de 1.200 anos fazendo cerveja no mesmo lugar.Mas o primeiro texto que realmente analisa o lúpulo como ingrediente vem de uma mulher. Hildegard von Bingen (1098–1179) foi abadessa, botânica, médica, compositora e conselheira do imperador Frederico I, o Barbarossa. Em seu livro Physica Sacra, escrito em 1079, ela descreveu as propriedades benéficas da cerveja feita com Humulus lupulus. Hildegard bebia cerveja regularmente e viveu até os 81 anos, uma raridade pra época, e defendia que havia uma ligação entre a longevidade dela e o hábito. Pode ser que ela estivesse certa sobre mais do que imaginava.O lúpulo foi ganhando terreno de forma gradual. O rei Luís IX da França aprovou uma lei em 1268 determinando que só malte e lúpulo podiam ser usados na produção de cerveja no reino. O Reinheitsgebot alemão, já no século 16, consolidou o mesmo princípio incluindo o lúpulo como um dos três ingredientes obrigatórios, ao lado do malte e da água. Na Holanda, há registros de uso desde o século 14.A entrada do lúpulo na Inglaterra foi mais turbulenta. Cervejeiros imigrantes belgas e flamengos introduziram a prática por lá nos séculos 15 e 16, mas a recepção foi complicada, tanto cultural quanto política. Naquele tempo, os termos "ale" e "beer" não eram intercambiáveis como são hoje: "ale" era a bebida tradicional inglesa, sem lúpulo; "beer" era o nome dado especificamente à versão lupulada que os imigrantes trouxeram. A nova bebida dividiu opiniões, e o exemplo mais surpreendente dessa resistência veio de cima: Henrique VIII, nos anos 1530, proibiu o uso de lúpulo em sua corte. O rei que, convenhamos, não era exatamente um modelo de comportamento contido, considerava o lúpulo um afrodisíaco capaz de incitar a população a comportamentos pecaminosos. A ironia de um homem com seis esposas e incontáveis amantes querendo legislar a moralidade alheia via ingrediente de cerveja é uma das melhores piadas que a história da bebida nos deixou.A transformação que o lúpulo provocou na cerveja inglesa, porém, foi irreversível. A partir dos estilos marrons que surgiram com a nova erva, derivaram as mild ales, os porters, os stouts e, mais tarde, as IPAs, as bitters e as pale ales que definiram o que o mundo passou a associar à cerveja britânica. Hoje, quando faço um dry hop na Galo Velho Cold IPA, jogando o lúpulo direto no fermentador ainda durante a fermentação pra capturar o máximo de aroma, estou usando uma planta que monges bávaros do século 8 já cultivavam com cuidado. O que mudou não foi o ingrediente. Foi nossa capacidade de entender exatamente o que ele faz e isso continua sendo a parte mais fascinante do trabalho.

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